O dia do embarque e os primeiros perrengues

  • 19/03/2016
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  • Por: Guilherme Goss De Paula

o dia do embarque

O tempo passou e chegara o grande dia. Era 12 de março de 2008. Após uma noite razoável de sono, o dia amanhecera nublado em São Paulo. A expectativa era grande, afinal não era uma simples viagem de uma semana com tudo previamente confirmado. Muito pelo contrário. Eu estava prestes a embarcar em um grande, e complexo, sonho: um mochilão por 28 países europeus.

Eu tinha em mãos a passagem aérea de ida de São Paulo a Porto (Portugal) e a volta marcada desde Helsinque (Finlândia) pra dali três meses. Para percorrer todo o continente europeu, eu tinha um passe de trem Eurail Global Pass, também com três meses de duração. Entretanto, as hospedagens eu havia decidido reservar pouco a pouco para poder ter flexibilidade no roteiro e fazer alterações se julgasse necessário. Ou seja, minha única reserva de hospedagem confirmada, até então, era para um albergue na cidade do Porto, meu primeiro destino.

Junto com toda a expectativa natural, havia um pouco de apreensão me cercando. Isso porque, uma semana antes, estudantes brasileiros que participariam de um congresso em Lisboa (Portugal) haviam sido barrados no aeroporto de Barajas, em Madri, onde pegariam o voo de conexão. Os estudantes foram deportados sem motivo aparente e também relataram maus tratos – o que causou um grande incômodo diplomático entre Espanha e Brasil que, em seguida, adotou a reciprocidade e deportou alguns espanhóis. No decorrer dos dias, após algumas reuniões e negociações, os ânimos se acalmaram e, na mídia, diziam que tudo estava correndo com tranquilidade novamente. Bom, isso eu poderia constatar pessoalmente, pois minha entrada em território europeu se daria justamente pelo temido aeroporto de Madri.

Não bastasse toda a tensão envolvendo a viagem, o despertar desse dia veio junto com um grande susto. Um problema de saúde na família me tirou o sono às 8h da manhã. Meu avô sofreu um desmaio. Tentei chamar uma ambulância. Sem sucesso. Eram tantas as perguntas que me faziam ao telefone que a única resposta que pude dar foi “– Não sou médico”. Desisti. Corremos para o hospital mais próximo e, enquanto o atendimento era prestado, eu tentava alterar as passagens. Os voos para os próximos três dias estavam lotados. A situação era incerta. Aguardávamos notícias de seu estado de saúde para tomar as próximas decisões. Felizmente, não demorou muito para que os médicos o liberassem. Estava tudo bem com ele. A causa do desmaio podia ter sido uma queda de pressão. Entrei para visitá-lo e conversamos por alguns minutos. Ele me encorajou a seguir viagem e a decisão foi tomada ali mesmo. Despedimo-nos. Outros familiares também se despediram de mim ainda no pronto socorro. Quanto choro! Que susto! Mas, finalmente a situação estava controlada. Parti aliviado.

Cheguei ao apartamento, arrumei as minhas coisas e segui, acompanhado pelos meus pais, para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Fiz o check-in, despachei o mochilão e, pouco antes do embarque, soube que meu avô fora liberado do hospital. Ufa! E as últimas lágrimas escorriam pelo rosto da minha mãe enquanto eu me dirigia ao embarque internacional. Respirei aliviado e com a certeza de que tudo ficaria bem. Não demorou muito para que o meu voo fosse anunciado nos alto-falantes. Enfim, chegara o meu tão sonhado momento. Entrei na aeronave, procurei meu assento e respirei fundo. Apesar das intempéries, tudo havia se resolvido e eu já podia relaxar e manter a cabeça fresca até chegar em Madri, certo? Errado.

Durante o voo, inexplicavelmente, minha carteira sumiu do bolso traseiro das minhas calças. Conferi novamente. Não estava lá. Passei a mão por dentro do bolsão da poltrona à frente. Busquei nos outros bolsos. Nada. Estiquei a manta, levantei o travesseiro. Retirei todas as coisas do bolsão: revista de bordo, saquinho de vômito, embalagens das amenidades, fones de ouvido. Não encontrei. Olhei pra trás. E para os lados. Acendi a luz. Procurei no chão. Nada. Apaguei a luz. Procurei suspeitos. Foi o cara de trás. Tive certeza! Ou quase. Mas ainda procurei entre as poltronas. Em vão. Pensei no pior: ter que voltar pra casa. Busquei alternativas. Calculei quanto tempo poderia viajar sem o dinheiro, cartão de crédito e documentos que estavam na carteira. E achei melhor voltar a procurar em todos os lugares. Desisti e levantei-me. Fui falar com os comissários. Contei-lhes que havia perdido a carteira e perguntei se alguém a havia encontrado. A resposta foi negativa. Voltei para o meu assento. Um comissário me ajuda em uma nova busca. Outra vez em vão. Foi o cara de trás. Penso. E tenso, adormeço. Tempos depois, as luzes da aeronave são acesas. O barulho nos alto-falantes me despertam. Enquanto meus olhos se abrem lentamente, ouço meu nome ser pronunciado. Estou confuso. Mas sim, chamaram pelo meu nome. Levanto o braço para me identificar, o comissário se aproxima em poder de um objeto nas mãos. Ele questiona: – É sua? Olho atentamente e, ainda sonolento, identifico a minha carteira. Ele conta que alguém a encontrou no banheiro. Agradeço e ele se vai. Abro a carteira, confiro e está tudo lá dentro. Suspiro aliviado e feliz. Não havia sido cara de trás. Ninguém havia furtado a minha carteira. Nem o meu sonho. Eu, simplesmente, a deixei cair no banheiro sem dar-me conta. Relaxei e curti o restante do voo.

Pouco depois, nos aproximamos de Madri. A aterrissagem é autorizada e a aeronave pousa com tranquilidade. Pego meus pertences, desembarco e sigo à procura da minha conexão para Porto. Antes, porém, tenho que passar pela imigração. Pego a fila e a tensão volta à tona. Deixo os documentos à mão. Rezo. Sou o próximo. O oficial me chama. É pouco cordial. O oficial da cabine ao lado se levanta e caminha em direção a uma sala com vários passaportes presos entre seus dedos. O tal que me atendia ergue a cabeça, o vê caminhando e lhe pergunta em tom de zombaria: “– Só esses?”. De imediato, o outro responde, no mesmo tom: “– Tem algum aí pra mim?”. “– Não. Mas se quiser esse aqui…” – retruca erguendo meu passaporte. Todos assistem alarmados à cena. Mesmo nervoso, encaro como brincadeira e arrisco entrar na conversa “– Não, não, esse não!”. Ele abaixa o braço, coloca meu passaporte de volta sobre a mesa, o carimba e me entrega. Agradeço, pego o passaporte e me contenho pra não sair pulando de felicidade!

Segui extasiado para o próximo portão de embarque. O tempo de conexão era curto e logo embarquei. O avião, logicamente, era bem menor e menos confortável – mas a elegância da aeromoça, loira, de trajes azuis e luvas negras, compensava! O voo era rápido e quando me dei conta já sobrevoávamos o destino final. Lá do alto, ficava supondo o que me esperava lá embaixo, enquanto admirava as paisagens pela janelinha do avião. Pousamos e, após o desembarque, adivinha? Fui parado para inspeção de bagagem. Abro os cadeados para que um senhor, já de cabelos brancos, possa bagunçá-la à vontade. Mas poucos segundos depois, a bagagem é liberada. Fecho os cadeados. Apoio a mochila sobre a mesa e me encaixo nela, como se fosse uma carapaça. Caminho, ainda desajeitado pela distribuição do peso, em direção à saída e deixo o aeroporto para, agora sim, finalmente, desbravar o Velho Continente!


Este é o 2º post da série Mochilão na Europa I (28 países)

Leia o post anterior: O dia da decisão: Vou fazer um mochilão pela Europa

Leia o próximo post dessa série: Amor à primeira visita (Porto, Portugal)

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Guilherme Goss De Paula

Nascido em Tupã, no interior de São Paulo, sua primeira experiência internacional foi um intercâmbio na Alemanha - onde despertou seu interesse por conhecer o mundo. Trabalhou com turismo nos EUA, no Amazonas e em Santa Catarina. Graduou-se em Turismo e Hotelaria e abriu sua própria agência de viagens. Sempre em busca de novos destinos, acumula passagens por mais de 60 países. Como escritor-viajante, já participou de diversas edições dos guias O Viajante, além de ser colaborador voluntário dos sites TripAdvisor e Mochileiros.com. Sua melhor viagem é sempre a próxima!


3 respostas para “O dia do embarque e os primeiros perrengues”

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